Nesta semana, QuatroTantos recebe Amara Moira, escritora, professora e ativista. É a primeira mulher trans a defender uma tese com nome social na Unicamp. Seu último livro, Neca: Romance em bajubá, lançado pela Companhia das Letras e que acaba de sair em inglês, desmarginaliza a linguagem, inova a gramática e ficcionaliza com o código linguístico, cultural e histórico criado pelas travestis brasileiras. A literatura de Amara ecoa pessoas, tradições, vidas e cenários que a sociedade insiste em invisibilizar. Transforma oralidade desmoralizada em estética de reinvenção. Idealizado por Alessandro Araujo, QuatroTantos é um espaço para alastrar e descentralizar a literatura contemporânea. 

Amara, Neca, sua última obra, é escrita em bajubá. É também uma maneira de combater o preconceito linguístico?

Indiretamente sim. A ideia era apresentar a um público mais amplo essa língua secreta criada pelas travestis. O bajubá, por ter surgido no âmbito da prostituição e ter bastante influência das religiões de matriz africana, era visto como uma língua de marginais, sofrendo discriminação mesmo dentro da comunidade LGBTQIA+. Explorá-lo literariamente é uma forma de subverter esses preconceitos e de mudar a maneira como a cultura travesti é vista pelo restante da população.

“O bajubá, por ter surgido no âmbito da prostituição e ter bastante influência das religiões de matriz africana, era visto como uma língua de marginais, sofrendo discriminação mesmo dentro da comunidade LGBTQIA+.” —AMARA MOIRA

É possível afirmar que existe um processo de consolidação e desmarginalização da literatura LGBTQIAPN+ em curso no país?

Acredito bastante nisso, até por perceber que algumas das mais notáveis obras contemporâneas são de autoria e/ou temática LGBTQIA+. Estou pensando num “Nove noites”, de Bernardo Carvalho, num “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo, num “Amora”, de Natália Borges Polesso, num “Sodomita”, de Alexandre Vidal Porto, e, por que não?, no meu próprio “Neca: romance em bajubá”. Se antes era um parto para que obras dissidentes fossem publicadas (como é o caso do romance anônimo “Lady Hamilton”, que, apesar de ser uma obra brilhante, só existe como anexo de uma tese médico-legal de 1953), agora as nossas obras representam as facetas mais inventivas da literatura brasileira, sendo disputadas a tapa por editoras de todos os tamanhos.

Tem alguma palavra utilizada no seu livro que não está no dicionário que você teria muito orgulho que fosse incluída pela repercussão da sua obra? Por quê?

Seria lindo ver “neca” na boca do povo, ganhando entrada nos grandes dicionários do português. E aqui estou pensando na odara do bajubá, não na “de pitibiriba” do português. No Dicionário Houaiss, a única menção ao bajubá ocorre no verbete “bofe”, que afirma que essa palavra faz parte da “linguagem dos homossexuais”. Dá pra complexificar essa investigação, as marcas do bajubá no português são muito mais profundas. O bajubá devora o português, misturando-o com as línguas dos terreiros (iorubá e banto, sobretudo) e as de países onde há forte presença de travestis brasileiras (como o italiano, o espanhol e o francês). É bonito ver as transformações que o português sofre na boca de travestis.

“Seria lindo ver “neca” na boca do povo, ganhando entrada nos grandes dicionários do português. E aqui estou pensando na odara do bajubá, não na “de pitibiriba” do português.” —AMARA MOIRA

No Brasil, a literatura pode salvar vidas trans e travestis?

A literatura chega aonde nossos corpos não chegam e, com isso, pode criar brechas para que um dia estejamos em todos os lugares. Pelas obras, a sociedade pode ir se acostumando a conviver conosco, pode aprender a admirar nossas histórias de vida, nossa imaginação, nossa irreverência. No entanto, é preciso cuidado, pois o contrário também é perfeitamente possível: a literatura piorar as nossas condições de existência. A literatura não é essa coisa fofinha que a gente vê por aí… ela é uma poderosa ferramenta e pode servir a projetos bastante díspares de sociedade, daí a importância de disputarmos esse espaço e de estarmos sempre vigilantes.

“A literatura chega aonde nossos corpos não chegam e, com isso, pode criar brechas para que um dia estejamos em todos os lugares.” —AMARA MOIRA


Amara Moira é travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e autora dos livros “E se eu fosse puta” (n-1 edições, 2023) e “Neca: romance em bajubá” (Companhia das Letras, 2024). Além disso, ela traduziu o livro de contos “Chuva dourada sobre mim” (Diadorim editora, 2024), da travesti argentina Naty Menstrual, e foi coordenadora do Museu da Diversidade Sexual em São Paulo, onde atualmente reside.


Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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